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Homenageados do IFCH no Prêmio Egresso Unicamp 2024

Autor: ifchinfo

Em sua segunda edição, o Prêmio Egresso Destaque Unicamp 2024 reconheceu 30 ex-alunos de diferentes áreas do conhecimento por suas trajetórias profissionais e contribuições à sociedade. A cerimônia, realizada no auditório do Instituto de Geociências (IG) na última quinta-feira (12), celebrou o impacto transformador da formação acadêmica da Unicamp.
Entre os premiados, os dois ex-alunos do IFCH homenageados fora Pedro Meira Monteiro, na categoria pós-graduação, e Ana Cláudia Lopes (in memoriam), representada na cerimônia pela professora Monique Hulshof, na categoria graduação.
A cerimônia destacou o compromisso da Unicamp em fortalecer os laços com seus ex-alunos, ressaltando o impacto transformador que essas trajetórias representam. A homenagem aos egressos do IFCH evidencia a excelência e o alcance global da formação acadêmica oferecida pela Universidade.
Pedro Meira Monteiro, egresso da pós-graduação em Sociologia do IFCH, hoje é professor na Princeton University, nos Estados Unidos, onde ocupa a prestigiada cátedra Arthur W. Marks 19 Professor of Spanish and Portuguese. Com uma sólida trajetória acadêmica, Meira Monteiro é autor e tradutor de obras fundamentais sobre literatura e cultura brasileira, consolidando-se como referência internacional nos estudos sobre o Brasil. Além de sua contribuição acadêmica, dirige o Departamento de Espanhol e Português de Princeton, promovendo o diálogo intercultural e ampliando a visibilidade da produção brasileira no exterior.
Ana Cláudia Lopes, a Anita, foi homenageada por sua trajetória acadêmica excepcional na Filosofia. Ingressante na Unicamp em 2006 por meio de ações afirmativas, Anita foi reconhecida por sua excelência acadêmica e engajamento crítico. Doutora em Filosofia pela Unicamp, ela alcançou destaque internacional com publicações em várias línguas e um estágio no Centro de Pesquisa Normative Orders da Universidade de Frankfurt. Em seus estudos, dedicou-se ao feminismo e à teoria crítica até seu falecimento precoce. Sua tese de doutorado, indicada ao Prêmio CAPES, será publicada em reconhecimento à sua relevância intelectual.
A professora Monique Hulshof preparou uma homenagem à memória de Anita que reproduzimos abaixo.
"Gostaria de agradecer imensamente por esse prêmio que nos acalenta em forma de homenagem à Ana Claudia Lopes, nossa querida Anita, professora e amiga que tão cedo nos deixou, no dia 15 de outubro deste ano. Uma pessoa solar, que iluminava e alegrava todos os lugares pelos quais passava, Anita foi brilhante em todos aspectos de sua trajetória acadêmica e intelectual. Na graduação, aluna ingressante no curso de filosofia pelo Programa de Ações Afirmativas e Inclusão Social da Unicamp (PAAIS), como ela gostava de enfatizar, Anita dedicou-se intensamente ao estudo da filosofia e das línguas, tornando-se já na graduação uma excelente pesquisadora.
Gostaria de ler um pequeno trecho do memorial escrito por Anita para o concurso de docente na Universidade de São Paulo. Pensei em trazer, ainda que brevemente, sua para narrar a sua entrada na graduação da Unicamp:
Em 2016 ingresso na graduação em Filosofia da Unicamp. Naquele ano, eu havia concorrido e sido aprovada também nos processos seletivos da USP e da Unesp. O curso da Unicamp me seduziu, porém, porque se tratava de um curso considerado de excelência, mas com apenas trinta ingressantes por ano, o que me parecia permitir um contato mais próximo com os professores. Além disso, o custo de vida, mesmo em uma cidade cara como Campinas, era menor do que em São Paulo, onde eu teria de continuar trabalhando em tempo integral ao longo da formação para completar o orçamento básico.
Por fim, e talvez mais importante, o Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social (PAAIS) da Unicamp enviou uma mensagem importante para uma pessoa com meu perfil. Primeiro: parda, para usar os termos do IBGE adotados no programa – termo que, não obstante, sempre serviu à minha autocompreensão, e não apenas porque nasci em uma família interracial em que, de um lado, era “nega maluca” e, de outro, “leite azedo”. Percebo-me e sou percebida como mestiça, negra de pele clara. Segundo: proveniente de escola pública. Criado em 2004, o programa foi modificado em 2017 por conta das deficiências detectadas em vista de seus objetivos – o número de estudantes pretos, pardos e indígenas (PPI) começou a cair. Após essa alteração no programa, a Unicamp manteve a bonificação para estudantes provenientes de escola pública, mas a bonificação para estudantes PPI, que foi oferecida de 2004 a 2016 acabou sendo substituída pela reserva de vagas. Apesar disso, dez anos antes, em 2006, a bonificação dupla oferecida na segunda fase do processo seletivo foi um fator decisivo, mais do que em meu ingresso, também em minha escolha pela Unicamp. Toda a discussão das políticas afirmativas, por sua vez, foi definidora da própria decisão de tentar ingressar no ensino público e até mesmo mais importantes que os outros incentivos recebidos – incluindo o mínimo material que o então há pouco conhecido pai biológico prometia garantir. Era como se a Universidade afirmasse que não só seria bem-vinda, mas que desejava pessoas com meu “perfil”.  
De fato, o seu “perfil” era muito desejado por essa Universidade: uma aluna dedicada, engajada, questionadora, solidária e comprometida com a instituição e com o ensino público. Com uma impressionante capacidade argumentativa e o ânimo sempre disposto à conversa instigante e a um belo debate, Anita marcou profundamente muitas pessoas que com ela conviveram nas aulas, grupos de estudos e na vida acadêmica.
Grande entusiasta da filosofia, em seus diferentes modos e expressões, ela fez em sua tese de doutorado direto uma maravilhosa defesa das tarefas da filosofia prática na teoria crítica da sociedade. Orientada por Yara Frateschi, a tese Norma e utopia: a transformação da ética do discurso na teoria Crítica investigou os modos de justificação filosófica dos critérios normativos para a crítica social. A tese recebeu menção honrosa do “prêmio filósofas” e resultou também na primorosa tradução do livro “Situando o self” de Benhabib.  A pesquisa realizada durante o doutorado teve forte inserção internacional, especialmente na Alemanha, onde ela foi reconhecida com a publicação do capítulo na editora Suhrkamp, da qual ela se orgulhava muito. Ela adorava brincar de chamar os colegas de “Scholar” e ela sabia que já havia se tornado também uma admirável “Scholar”. Nos anos posteriores ao doutorado, sem deixar de cultivar seu talento para a pesquisa, Anita tornou-se uma docente extraordinária, na Universidade Federal da Bahia, onde exerceu com muita alegria seu cargo de docência, aliando a exigência de rigor intelectual, com a necessidade de se saber rir com a filosofia. Em suas aulas, Anita dava vida à filosofia.
A homenagem póstuma que nossa aluna egressa da graduação da Unicamp recebe hoje é uma boa ocasião para que todos conheçam a incrível trajetória intelectual de Ana Cláudia Lopes: seus textos merecem ser lidos, debatidos, comentados e mantidos vivos. Nossa querida Anita, seu sorriso solar e inesquecível estará sempre dentro de nós."